A cultura rizícula e a festa do arroz

     Em Cachoeira do Sul, o arroz sempre constituíra a principal cultura do município, representando metade do valor da produção geral de todos os cereais durante o período e tendo grande peso posteriormente. As variedades predominantes na lavoura arrozeira eram Carolina, Agulha e Japonês. Em 1931, o Blue Rose substituiu o Agulha, por ter melhor preço, maior rendimento e pequena quebra. Suas desvantagens eram o plantio tardio e a exigência de maior fertilidade da terra. A baixa na produção em 1931 se deu pela maior quantidade de grãos quebrados. A produção foi de 5,3 inteiros para cada 1 quebrado, no início dos anos 20, para 1,5 grão inteiro para 1 quebrado, dez anos depois. Outra queda foi verificada em 1935: de 48,6 mil toneladas para 30,5 mil (37,2%). A razão foi a praga do arroz vermelho, que trazia prejuízos e tornava as terras impróprias para a cultura do arroz. Ocorria por conta das sementes de baixa qualidade, mais rústicas e precoces, menos exigentes de fertilidade e água, que matavam os pés das variedades cultivadas ao seu lado. Em três anos, a terra tinha de ser abandonada. Em estudo realizado naquele ano, o engenheiro agrícola Bonifácio Bernardes previu “futuro pouco promissor” para a lavoura arrozeira, devido à falta de amparo técnico oficial, com estações experimentais de arroz, “verdadeiros” técnicos para fazer aclimação e estudo, para que o agricultor tivesse sementes puras e selecionadas, além de ensino de técnicas adequadas (Pimentel, 1941).

    Em decorrência da crise mundial de 1929, muitos rizicultores passaram a exigir intervenção imediata e pronta do Estado, atuando diretamente no financiamento da produção. Eles reivindicavam um instituto que defendesse os interesses da lavoura arrozeira. Isto porque os altos e baixos típicos da monocultura provocavam instabilidade no mercado, necessitando de “assistência benévola do poder público”, nas palavras do próprio editorial do Jornal do Povo, em mensagem ao ministro da Agricultura, Assis Brasil (Jornal do Povo, 1930b, 1931a, 1931c). A União Central de Rizicultores, associação que poderia unir os interesses a ponto de tornar os rizicultores mais fortes para pleitear subsídios ou crédito agrícola para o principal ramo cachoeirense, só foi fundada no final da década, em 1939, quando da deflagração da guerra na Europa, coincidentemente quando a produção local apresentou seus primeiros sinais de queda acentuada.

     Foi a associação que abraçou a ideia de promover a Festa do Arroz. A primeira vez em que se cogitou fazer a exposição para aproximar exportadores e plantadores foi em 1933. Isto porque, além das questões de promoção do nacionalismo, a alta do preço do arroz em 1931-1932 animara os negócios. As transações efetuadas alcançavam somas há muito não vistas. Havia semanas em que eram negociados 45 mil sacos do produto descascado. Partindo da ideia de que outras regiões gaúchas tinham suas feiras para comemorar o término da safra, como Caxias do Sul com a uva, a festa para o arroz tornava-se ótima oportunidade para propagar a “principal fonte de riqueza e de vida” cachoeirense (Jornal do Povo, 1931b, 1931d, 1932b). O poeta Lisboa Estrazulas questionou: “E não traria grandes vantagens para todos os outros ramos de negócio, estagnados, a afluência anual de forasteiros à pérola do Jacuí?” (Estrazulas, 1933, p. 2).

     Combatida a praga do arroz vermelho e substituída a variedade na metade final da década de 1930, a produção cachoeirense voltou a crescer. Em 1938, a produção mundial foi estimada em 91,4 milhões de toneladas. O Brasil ocupava a nona posição, com 1,53 milhão de toneladas. São Paulo liderava com 516 mil, seguido do Rio Grande do Sul com 270 mil e Minas Gerais com 258 mil. Neste contexto, a produção do município de Cachoeira foi de 68 mil toneladas, um quarto (25%) da gaúcha. Das exportações de arroz no Estado, no ano de 1939, 70% era do tipo Japonês (0$057 réis o quilo) e 28% do Blue Rose (0$070 réis o quilo). O restante era das variedades Agulha, Cangica, Pardo e Quirela. A estimativa, no final dos anos 1930, era de que 25 mil pessoas trabalhavam nas lavouras de arroz cachoeirenses, sendo 15 mil efetivas. Tratava-se de um número considerável frente aos 83 mil habitantes do município, 20 mil na zona urbana e 63 mil nas zonas agrícolas. A capacidade de beneficiamento (descasque) dos engenhos cachoeirenses era de 9 mil sacos, em torno de 450 toneladas, em 24 horas, o que exigiria aproximadamente 157 dias ininterruptos para processar a produção total, razão pela qual se exportava parte da colheita rizícola in natura, com perda de valor agregado (26$000 réis por tonelada em relação ao Blue Rose). O valor do frete entre Cachoeira e Porto Alegre era 1$700 réis o saco via ferrovia, e entre 1$000 a 1$400 réis via fluvial. Até a capital federal, Rio de Janeiro, o valor do frete, taxas e impostos elevavam a saca de arroz em quase 50%, descontentando muitos produtores (Pimentel, 1941). A economia rizícola passaria por novo ciclo de expansão iniciado em 1933, com o valor dos embarques dobrando entre 1935-1936. Ao mesmo tempo, o charque apresentava queda no valor. Em Cachoeira do Sul, o estabelecimento Charqueada do Paredão fechou no início dos anos 1930 (Müller, 1998).

     Com a intensificação do conflito bélico europeu, os preços dos produtos agropecuários brasileiros tiveram relativa estabilização. No início dos anos 1940, a valorização da produção praticamente esgotou os excedentes gaúchos. Conforme Relatório da Diretoria do Banco do Rio Grande do Sul, correspondente aos anos de 1938-1947, o arroz teve forte incremento nos volumes produzidos, passando de 222,4 mil toneladas em 1937 para 392,7 mil toneladas em 1942 e 628,2 mil toneladas em 1946 (Müller, 1998). Foi na conjuntura da deflagração da guerra que Cachoeira do Sul organizou sua primeira Festa do Arroz. O evento ocorreu entre os dias 9 e 16 de março de 1941. Um ano antes havia ocorrido o I Congresso dos Rizicultores do Rio Grande do Sul, evento organizado pela União Central dos Rizicultores. Dentre as solicitações ao poder público (federal, estadual e municipal), destacaram-se: fixação do preço mínimo para assegurar ao produtor lucro razoável; aquisição por preço compensador do estoque de arroz; exclusão do arroz no tabelamento oficial; fornecimento de crédito agrícola, redução dos juros, dilatação dos prazos de pagamento e facilitação de empréstimos; isenção de taxas e impostos; redução do preço dos fretes; assistência técnica; entre outras. Nas sugestões de interesse geral dos rizicultores, destacava-se a mecanização progressiva da lavoura. Naquele ano, a safra teve produtividade média de 2,9 mil quilos por hectare, numa área plantada em torno de 22 mil hectares (Pimentel, 1941).

     Os festejos da I Festa do Arroz tiveram início com a programação oficial acertada entre o interventor federal, Coronel Cordeiro de Farias, e o prefeito municipal, Cyro da Cunha Carlos. O Jornal do Povo anunciou que “o Interventor Oficial, atendendo ao apelo que lhe dirigiu o Prefeito, em nome da Comissão Central, permanecerá em Cachoeira durante o período de festas, participando, pessoalmente, de todas as cerimônias” (Jornal do Povo, 1941c, p. 6). Deixando transparecer o caráter elitista da festa, o jornal dirigiu “veemente apelo” para que as senhoritas comparecessem em trajes camponeses. Algo notório para uma sociedade urbana que procurava se afastar, nos demais dias do ano, do estereótipo rural. Através da máscara campestre, a elite justificaria seu interesse e participação no evento (Chartier, 1990). Lia-se na reportagem que “a ostentação de trajes típicos do campo daria ao ambiente da festa uma nota bizarra e interessante, numa reunião em que se procura realçar a glória da lavoura” (Jornal do Povo, 1941a, p. 4).

     Na onda nacionalista que assolava a Europa e se refletia no Brasil, apelou-se para que a comunidade em geral hasteasse em frente às residências e estabelecimentos comerciais a bandeira nacional e que iluminasse e ornamentasse as fachadas, principalmente na Sete de Setembro e Júlio de Castilhos, as duas principais ruas da cidade por onde passaria o cortejo. Desfilaram carros alegóricos das empresas Alaggio & Cia. e Mernack & Cia., assim como da Associação do Comércio e Indústria de Cachoeira e do Club União Familiar, ambos confeccionadas pelos cenógrafos porto-alegrenses Américo Azevedo e Luiz Borba e não por agricultores, a quem, afinal, o evento dizia representar (Jornal do Povo, 1941d). O Jornal do Povo considerou vitoriosa a realização da festa, imputando elogiosamente a iniciativa ao grupo de cachoeirenses “empreendedores” e “dinâmicos”. Esta atitude procurava mostrar falsa unanimidade entre população e poderes públicos (Jornal do Povo, 1941b, p. 1). O articulista do jornal, Braz Camilo, ironizou a questão de forma simples:  Come-se arroz, bebe-se arroz, dorme-se arroz, compra-se arroz, vende-se arroz, enfim, só dá arroz na caixa. Para que não digam que eu não sou patriota, já decretei lá em casa, seis dias de arroz. Quer isto dizer que de hoje ao próximo sábado, nenhum outro alimento grosseiro maculará o lustre alvinitante das brunidas panelas que ornam a minha farta cozinha (Camilo, 1941, p. 1).

     A festa era o principal assunto da cidade, que a imprensa, obviamente, explorava. Na programação oficial constaram: partida de futebol entre Brasil de Cachoeira e Internacional de Santa Maria e entre os porto-alegrenses Internacional e Rio Branco, retretas, concurso de vitrines, espetáculo de teatro, recepção solene para o interventor federal no Estado, inauguração de monólito comemorativo, missa e cerimônias religiosas, homenagens diversas, discursos, brindes, distribuição de medalhas, coroação das eleitas, bailes para convidados de honra nos clubes Comercial e Concórdia, congresso rizícola, circuito automobilístico, visitas oficiais e desfile de carros. A visão elitista também impregnou o concurso da escolha da rainha da I Festa do Arroz. A coroação de Luci Ribeiro, com as princesas Emérita Carvalho Bernardes, Ruth Neves de Oliveira e Leda Duarte, todas elas filhas da elite cachoeirense, foi espetacularizada, assim como a parada militar evocando o nacionalismo do momento. Era possível ver nas faixas slogans que exaltavam a nação, como palavras do tipo “grandeza” e “nobreza” para se referir ao acontecimento (Pimentel, 1941; Schuh e Sanmartim Carlos, 1991).

     Apesar do propagado sucesso, a segunda edição sairia somente 28 anos depois, em 1968. Neste meio- -tempo, foi realizada uma das edições da Festa do Trigo em Cachoeira, em 1956. Parte do motivo desse longo intervalo foi imputada ao fato dos festejos terem dado vazão a impulsos de desperdício de arroz por todos os participantes, como jogar grãos uns nos outros e depois pisoteá-los. A grande enchente que atingiu o Estado, poucos meses após a realização da festa, teria provocado no imaginário popular a ideia de castigo divino, razão pela qual não se promoveram festejos antes de fins dos anos 1960. Em momento posterior, essa ideia de força divina castigando a cidade serviu para justificar o menor crescimento econômico em relação a outros centros.

Fonte: SELBACH, Jeferson Francisco.  Expansão econômica em Cachoeira do Sul (RS), décadas de 1930-1940. História Unisinos 22(2):264-273, Maio/Agosto 2018 Unisinos – doi: 10.4013/htu.2018.222.10.

Dados de produção: http://www.deepask.com/goes?page=cachoeira-do-sul/RS-Arroz:-Veja-a-producao-agricola-e-a-area-plantada-no-seu-municipio